«Monsanto»: (mais) uma leitura de Bernardo Santareno
Ensaio escrito por João Loureiro
Resumo:
Dentro das peças que constituem Os Marginais e a Revolução (1979), de Bernardo Santareno, Monsanto continua a ser um daqueles lugares menos explorados. Dever-se-á isto à falta de matéria face às restantes propostas do livro? A uma peça com menos “corpo” ou capacidade para impactar?
Parece-me que se trata de uma peça que não é para estreantes no teatro santareniano, mas pela qual os curiosos que queiram fazer a viagem pela sua obra devem, necessariamente, passar.
Palavras-chave:
Bernardo Santareno; Monsanto; Revolução; Liberdade
Urge começar este pequeno texto com um aviso aos leitores. Como em tudo na minha vida, gosto de ser e fazer diferente, mesmo que incompreendido (por que outra razão começaria um ensaio com um preâmbulo em nome próprio?) Por este mesmo motivo, este pode parecer um texto diferente face a outros do mesmo caráter que o leitor tenha experienciado. Pois que para mim escrever sobre outros autores também é fazer Literatura e as linhas com que aqui coso uma interpretação mais ou menos tosca são apenas a minha leitura pessoal (passo a repetição propositada) da obra em questão. Não pretendo vir substituir, antes quero realçar a capacidade mais bela da arte: permitir 1001 interpretações para um mesmo passo, sem que o autor nos possa dizer se “finge ou mente”1.
Feita esta nota, avanço para outra de índole mais pessoal: ao largo da minha curta “obra ensaística” (faço menção a este termo para dar credibilidade à ideia que explorei acima, mas coloco-o entre aspas para não ofender nomes como Jorge de Sena ou Carolina Michaëlis de Vasconcelos, donos de uma verdadeira obra ensaística), tenho dedicado tempo, sobretudo, a textos de Bernardo Santareno. Sou apreciador da globalidade da Literatura Portuguesa, mas por partilhar uma afinidade toponímica com o autor, Santareno começou por me fascinar. Tenho vindo a tentar, de alguma forma, que a sua
obra seja ainda mais reconhecida e divulgada, como importante testemunho que é de um homem que viveu o mais cruel da ditadura portuguesa.
Bernardo Santareno (1920-1980) viveu a maior parte da sua vida em ditadura. Quando conheceu a liberdade, já pouco tempo teve para a gozar… A sua penúltima obra, Os Marginais e a Revolução, veio a lume em 1979 e, como o nome indica, tem como foco a exploração de minorias e oprimidos, tendo como pano de fundo uma Revolução dos Cravos que ainda não se tinha cumprido totalmente.
Um dos textos menos discutidos dentro desse conjunto é Monsanto, obra dramática curta, passada, justamente, no Parque de Monsanto, em Lisboa, à noite.
A cena é muito simples e é-nos, desde logo, apresentada como tal. O Sr. Silva vai suicidar-se nessa noite. Note-se que o teatro santareniano foca, principalmente, personagens vulneráveis, física e psicologicamente2, mas o “narrador” desses textos nunca evidencia essas como características definidoras da pessoa em questão, tratando- as, por vezes, com uma certa “brutalidade” que, à vista de um autor que vai dar voz a oprimidos e relegados da sociedade, não é expectável. Não é, por isso, de admirar que este Sr. Silva nos apareça descrito com uma “expressão grotesca de menino-velho assustado”, a fazer “«beicinho», num jeito infantil de chorar”, com uma “expressão de
«mártir»”3.
Por oposição, o “meio vagabundo, meio operário das obras” Zé Grilo chega ao parque nessa mesma altura e desdramatiza a situação do enforcamento iminente (ao ponto de torná-la ridícula, como no passo em que o Sr. Silva admite: “Quero morrer!...”, ao que Zé Grilo responde: “Pois. Também eu queria um bom bife com batatas fritas. Esteja quieto, merda, acabe com isso! E eu com este nabo ao colo… Ainda se fosse uma gaja boa…?!”)
O diálogo que se desenvolve entre o operário bruto e pejado de expressões populares e o homem farto de viver vai revelar que o Sr. Silva se sente fraco, ignorado e angustiado. Uma das grandes mágoas deste homem é, de resto, não ter sido parte mais interveniente no futuro que se desenhava no país e que o próprio retrata: “Tenho esperança. Chegaremos à sociedade sem classes, sem exploradores nem explorados…”
Ora é precisamente nas partes sobre política que o texto ganha uma envolvência extremamente interessante. O mesmo Sr. Silva, declaradamente comunista, como vimos,
assume que um dos seus problemas (“o meu mal”) é a paixão por ler. Segundo o próprio: “Eu li, Zé Grilo, li muito. O Alves Redol, o Ferreira de Castro, o Manuel da Fonseca… Até o Marx.” Temos, parece-me, dois planos de análise a esta passagem: por um lado, há um reforçar da ideologia política do Sr. Silva, que fortalece o seu aperto interior – mesmo depois de ter lido todos estes autores, não conseguiu aderir à luta que estava a ser travada no país4; de outra forma, e numa leitura minha, Santareno volta a usar esta cena, que constrói progressivamente, para evidenciar pontos de vista contrários e para colocar em causa tudo e todos – repare-se que, a seguir ao rol de autores que o Sr. Silva enuncia e garante já ter lido, Zé Grilo vai ridicularizá-lo com uma observação deliciosa: “Porra! E no fim disso, desses livros todos, veio parar aqui… para se enforcar. Coisa gira, a vida!” Podemos pensar: bem, o dramaturgo traça aqui uma clara fronteira e vem dar força e colar-se à personagem que está no espetro político oposto. Contudo, Zé Grilo também tem considerações sobre a política que podem contrariar uma primeira expetativa e, novamente, Santareno fabrica, a seu gosto, nova teia de observações até chegar à resposta que, literariamente, mais brilha. Observe-se:
“Sr. Silva (pouco à vontade): Você não se interessa por política, pois não, amigo Zé Grilo? De que partido é você?
Zé Grilo: Sou contra, amigo Silva. Sou contra todos. E os partidos são todos contra
mim.
Sr. Silva (desconfiado): Gosta mais da esquerda ou da direita? Sim, porque um homem sempre tem que…
Zé Grilo (interrompendo): Nem da esquerda, nem da direita, amigo Silva. Quando souberem e se puderem, tanto os da esquerda como os da direita me metem na gaiola. Já vê…
Sr. Silva (inquieto): Quando souberem… o quê?... Zé Grilo: Onde vou buscar o pão que como.
Sr. Silva: E… onde é? Zé Grilo: À família.
Sr. Silva (aliviado): Então…?! Não é mal.
Zé Grilo: Os partidos levam a vida aos coices uns aos outros, mas quando chegam à minha pessoa, e aos outros como eu, põem-se todos de acordo. E o Zé Grilo vai dentro. Choça com ele! Ná, não quero nada com partidos. Só quero ficar inteiro. Viva a liberdade!
Sr. Silva (outra vez apreensivo): Não entendo…?
Zé Grilo (chocarreiro): Não vem nos livros. E daí, quem sabe?”
Para concluir a questão política, Santareno dissipa aquela que poderia ser uma das dúvidas do leitor até ao momento. Sendo o dramaturgo um nome conhecido de resistência ao regime, não será de espantar que a maior relevância e superioridade nos argumentos seja atribuída àquele que despreza a política e, com ela, os novos ideais de liberdade? Pois bem, o mistério esclarece-se por si próprio, quando o Sr. Silva pergunta “O que foi o 25 de Abril para si?”, ao que Zé Grilo responde “Nada. Não chegou cá.” Este é o cerne da peça, a fala que justifica a sua presença neste livro. Tal como o travesti Françoise de A Confissão ou os jovens Misu e Tó Mané de Restos (algumas personagens de outras obras de Os Marginais e a Revolução), em Monsanto existe uma Revolução que ainda não chegou. E é essa particularidade que torna este conjunto de peças tão relevante: comprova que Santareno foi um autor que nunca viveu, realmente, a liberdade e, como tal, expõe sítios e feridas abertas a que Abril não chegou e que Abril não conseguiu curar.
Ainda assim, a peça não viria a terminar aqui. Chega à cena Amélia, filha de Zé Grilo, que ganha a vida na prostituição (o tal modo de vida condenável, pelo qual Zé Grilo teme a política). Amélia, que vive essa vida obscura, e que, num dado que Santareno sente necessidade de trazer para primeiro plano, tem outras duas particularidades que a tornam uma “marginal” – é “fufa” e droga-se.
Este é o momento final da peça, em que Santareno deixa entrar uma personagem possivelmente empática (até porque os outros protagonistas já são conhecidos pelo leitor, bem como os seus vícios e defeitos), alguém que se sente magoada pela fuga recente da namorada com um homem e que é forçada pelo pai, numa primeira fase, a voltar ao trabalho, uma vez que só conseguiu, nessa noite, “duzentos paus”. Essa é a mesma Amélia, a mesma personagem que termina a acompanhar o Sr. Silva e o pai a um bar, dizendo, ela própria: “Vamos às putas!”, acompanhada sem pudores pelo pai.
Monsanto é, por isso, uma peça com várias camadas, que aqui procurei explorar, e com muitas interpretações a destacar. Pareceu-me o mais relevante fazer, neste ensaio, uma leitura geral do texto e permitir o foco mais específico numa parte indissociável do teatro de Santareno – a questão política e a liberdade. Sendo um objeto mais amorfo e menos denso do que os seus companheiros de volume, este texto concentra tudo aquilo que um leitor de Santareno deve saber, embora não deva começar por aqui.
Bibliografia:
1Pessoa, F. (1995). Poesias (J. G. Simões & L. de Montalvor, Eds.; 15ª ed.). Ática. (Obra original publicada em 1942)
2Santana, S. S. (2017). Michês e paneleiros: Das identidades marginais em Vida breve em três fotografias, de Bernardo Santareno. Anais do V Seminário Internacional Enlaçando Sexualidades, Salvador, Brasil.
3Santareno, B. (2023). Teatro III: Obras completas (Vol. III, pp. 445–473). E- Primatur.
4Botton, F. V. (2010). O drama que exige ação: O teatro político de Bernardo Santareno. Travessias, 4(1), 317–340. https://www.redalyc.org/articulo.oa?id=702078555022
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