Mensagens

A mostrar mensagens de 2026

Portugal, Quo Vadis? | Poema Medida Velha

  Ò Portugale, Quo Vadis ? O teu timbre nada diz. Entre fado e abandono Olvidas d'Ourique o trono. Dos Suevos ficou o brado Eco antigo já quebrado. Niŭŭ Godo, Maçon ou Infiel Temeremos, Mãe fiel A medra foi-nos vivaça.  Conto se sustenta em tranças. No jardim Luso, vede as flores Sĕmpre acodem nobres mulheres. D. Miguel I, sombra ferida Trouxe a luta dividida. Hoje o tempo, sem guarida Há-de aduzer terra erguida Ò Portugale, Quo Vadis ?  Ergue a alma adormecida Faz do sonho nova vida. Saibas guisa para onde andar. Publicado na Revista Nova Alvorada, Volume V                                                                                                          ...

Absolvição

Conto de Vitor Marcolin.    Começou quando senti algo quente escorrendo pelo meu antebraço direito. Não senti dor; estava confuso. Tudo era exaustão. Havia a urgência de continuar correndo. Avancei até aos escombros de uma casa. Vasculhei o entorno: vi roupas de crianças espalhadas pelo chão. Pisei na cabeça de uma Barbie . Seu rosto estava sujo, e só lhe restava um tufo de cabelos loiros. De repente, mais disparos. Tive medo. Sentia o coração pulsando nas têmporas. Comecei a ter pensamentos estranhos: quis atravessar o muro, quis fundir-me àqueles tijolos. “Um portal para um lugar de paz”. O Xavier gritava o meu nome e me dava ordens; estava enlouquecido, o coitado: “Continue atirando, porra!”. Mirei no topo da colina e apertei o gatilho. Meu dedo ensanguentado não pôde sustentar o fogo por trinta segundos: escorregou.   E então veio a dor. Abaixei a arma e me encolhi, ainda junto ao muro. A metralhadora desaparecera: só havia o meu braço. Tentei respirar fundo, mas...

Recepção| O Mandarim (de Eça de Queiroz)

       Recepção de  Vitor Marcolin.           N o Brasil, chamamos “resenha”   a publicação  cuja finalidade é  analisar e criticar brevemente  um  texto ou livro   — geralmente de literatura. No entanto, acho mesmo que a forma portuguesa “recepção”  vença por ser mais correta , por exprimir melhor a atmosfera d e entusiasmo em torno da  chegada de um a  nov a   obra :  nós  a   recepcionamos.  É claro que há um paradigma , isto é, um modelo que precisa ser observado , sob o risco de se redigir um trabalho que, de tão  distinto do espírito da análise e da crítica, torne-se qualquer coisa, exceto uma recepção. Entretanto,  é preciso  considerar que  quem  efetivamente recebe o livro é um indivíduo, um  eu substancial  que, para criticar e analisar a obra, se  dispõe a participar da realidade que ela comunica.  Em suma, a...

Culpa| Soneto

Poderia ter sido tão diferente Sei que já passou muito tempo, não o suficiente. A dor, a ausência, a solidão Transformaram o meu coração.   Mesmo não querendo, por força maior, Fico somente uma questão por responder: De quem é a  maldita culpa, pode alguém dizer? Não sei se é minha ou tua? O que é pior?   Se for minha, assim me contentarei Um fardo pesado ao peito carregarei E, esta frieza e tristeza do mundo perceberei.   Mas, serei eu assim tão culpada quanto julgo? Não terei eu dado o meu melhor Com o que tinha no momento?                                                                                                        ...

O Horizonte Açoriano: evasão e aprisionamento

Imagem
Ensaio escrito por Matilde Lopes   Rebelo, Domingos. (1924). Costa dos Mosteiros [óleo sobre tela]. Museu Carlos Machado      O Arquipélago Açoriano, rodeado da imensidão do horizonte, não pôde escolher o seu sustento, associando-se, desde início, àquilo que o aprisionava: o mar. Este mar, figurado muitas vezes como a prisão dos açorianos, também foi visto, por muitos, como a única saída. Deste modo, pode-se afirmar, num primeiro momento, que o mar apresenta este duplo efeito na vida de cada ilhéu.       Esta duplicidade influenciará profundamente aqueles que sonham ultrapassar a linha do horizonte, ora com neblina ora com a silhueta de uma ilha ao fundo, e procurar recomeçar a sua vida sob outro céu sem o tão familiar «capacete». Esta inquietação evasiva atormenta o espírito do açoriano desde o momento em que vê, pela primeira vez, a espuma a chegar à areia, terminando quando consegue, finalmente, escapar da rocha vulcânica. Porém, é certo que, c...