Luís de Santarém
Há muitos, muitos anos havia, em Portugal, um homem sábio e douto, que passava os seus adiantados dias de vida a escrever. E se lhe deziam ou pediam que descansasse, o velho olhava a pessoa de alto a baixo e pedia apenas luz e sossego.
A única pessoa que esse rapaz de
génio sanguinário e rebelde ouvia era a sua velha mãe. Toda a vida, com uma
pequena exceção, tinham vivido na nobre cidade de Santarém, que Garrett mais
tarde veio pintar. Não eram abastados, mas conseguiam viver, graças a uma tença
em honra do falecido pai. E se sua mãe lhe pedia, com modos carinhosos, dois
minutos da sua atenção, ele acedia e parava momentaneamente a sua tentativa de
ficar, como os seus heróis, na História.
As vezes em que a mãe requeria a sua
presença eram, sobretudo, para comer ou, raras aparições essas, em caso de
visita do seu tio, Miranda de Sá. O tio era um homem ainda mais velho (que
naquele tempo toda a gente era velha), sempre com histórias a contar. Nessas
visitas é que o escritor se detinha mais tempo afastado da secretária. Achava o
tio um homem moderno e desavindo consigo mesmo, e esse espírito livre e
pensante dava-lhe matéria para cantar.
Um dia, afastou-se do papel, ergueu-se
e depositou um manuscrito pesado numa gaveta já preenchida de poemas e autos.
E, com a mesma serenidade com que pousou o pedaço de genialidade, outro papel
retirou e começou por escrever “Livro do Desassossego”. E morreu
instantaneamente.
E é por isso e só por isso (triste
efemeridade) que, hoje, não temos esse manuscrito que narraria a vida de Luís
Vaz, o homem pacato e sereno que, da sua terra natal tinha imaginado um mundo
fantástico, exatamente como ele é.
Luís morreu sem que pudesse ver as homenagens que o seu país lhe daria: um dia no calendário, que nem só seu é. O homem que fundou a cultura, a identidade e o íntimo do seu – do nosso – Portugal ao qual todos os velhos e novos foram beber inspiração não morreu, certamente, em vão, já que, sendo do tamanho de Virgílio, Homero, Dante, Shakespeare ou do seu tio, tem um dia só para si. Um dia que é feriado! Veja-se a vénia que te fizeram, velho que nos deste o orgulho de ser portugueses!
Conto autoral de João Loureiro
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