Recepção | Manhã submersa (de Virgílio Ferreira)
É superficial dizer que Virgílio Ferreira, em Manhã submersa, faz não mais do que uma ferrenha crítica contra a Igreja Católica e o estilo de vida português de meados do século XX Aliás, arregimentar o referido escritor nas fileiras do anticlericalismo é uma estratégia típica dos leitores contemporâneos — em sua maioria jovens —, que em tudo veem armamento para sua suposta luta por “justiça”, seja lá o que isso queira dizer. De fato, os elementos de crítica estão presentes na obra, mas sob uma hierarquia de valores, o que não é evidente. Explico.
Desde sempre, na organização da sociedade, o serviço prestado a Deus pelo sacerdote exige uma disposição interior fundamental: a vocação, isto é, o chamado da divindade que, ecoando na consciência do indivíduo, valida a decisão deste em sacrificar os caprichos da vida mundana em benefício do serviço divino. Quando essa condição essencial não é respeitada, cria-se uma quimera: o sujeito que, da noite para o dia, se vê obrigado a virar sacerdote porque esse é o caminho mais curto para escapar das mazelas da vida, tais como a fome, a miséria, a perseguição, a opressão etc.
Ora, dito isso, Manhã submersa apresenta-se como um reflexo desse desrespeito à vocação; o livro é um compilado de fatos sociais e psicológicos que, concentrados em um indivíduo — António dos Santos Lopes —, mostra a magnitude do desconcerto de se estar diante de Deus, mas longe de si mesmo. O pobre “Borralho”, pelas circunstâncias da vida, foi obrigado a agir inconscientemente. Daí no livro a linguagem — do próprio protagonista — trazer um gosto tão distinto daquela esperada de alguém que, consciente do próprio chamado, entrasse num seminário de livre e espontânea vontade.
Mas aqui está o gênio do escritor: Virgílio Ferreira mostra que todos na sociedade, desde viúvas piedosas, como D. Estefânia, a padres dedicados, como Frei Lino, também não têm mais a perspectiva do lastro da fé: o amor a Deus e ao próximo. E, justamente por isso, não podem mais entender a real importância da vocação na vida de um jovem prometido à batina.
A ver os seminaristas todos de preto nos comboios, “um patife de ganga atroou a gare com um grito de corvos: --- Quá, quá! Quá, quá!”. A reação veio logo com justiça: “Vá chamar corvo ao seu avô!”. O desprezo pela vida consagrada, que entre os aldeões é gracejo, nos corredores frios do mosteiro é uma disciplina que não acolhe a ascese, antes a aniquila. E isso porque todos estão surdos à voz que chama ao serviço de Deus. Daí quererem tornar padre à força um jovem pobre e esfomeado. E o que vemos é um recorte de uma convenção social hipócrita, porque desvinculada das verdades da sua própria religião: não interessa se o rapaz tem vocação para o sacerdócio, o importante é não morrer de fome e, de quebra, ajudar a família com alguns pedaços de pão.
Ora, é bastante evidente que, nesse sentido, a crítica do autor ao clero corrupto — a encarnação da má vontade — não é só cabível, como necessária. E isso não deve ser encarado pelos leitores católicos como literatura anticlerical, mas naturalmente como uma amostra da própria condição humana que preenche aldeias longínquas e mosteiros friorentos. E aqui vale ressaltar a qualidade literária de Virgílio Ferreira. O escritor lusitano — lido com gosto em ambos os lados do Atlântico — tem o perfeito domínio dos seus meios de expressão, sabendo fugir da vulgaridade nos momentos em que precisa mostrar, por exemplo, o quão difícil é para o jovem António resistir às tentações da carne. O escritor português dá uma lição de estilo e de verdade em Charles Bukowski — e nos leitores deste escritor norte-americano—, como se vê no seguinte recorte:
“(...) Lentamente silencioso, fui-me colando todo a mim mesmo, até ao mais íntimo de mim. Incha-me no crânio, devagar, um vapor quente e sanguíneo. Para um centro imprevisível, em giros rápidos de aço, uma fina teia radia-me das unhas das mãos e dos pés. Voga agora, na água límpida da memória, uma imagem branca dormente. Depois esvai-se. Depois regressa. Depois desaparece definitivamente, mas deixa, ó Deus, deixa uma presença vivíssima, vivíssima, vivíssima, como a chaga que nos fica de um ferro em brasa. Bruscamente, porém, tudo em mim rebrilha incandescente. Uma estrídula gritaria levanta-se-me no cérebro, um guincho agudo fura-me a cabeça de um ouvido ao outro e um murro surdo, absoluto, abate-me finalmente. Dobro-me sobre mim, rendido, e ali me deixo ficar, longamente, esquecido da vida, de tudo (...)”.
Ferreira sabe pôr no papel as angústias do jovem que se descobre em luta contra si mesmo. Seu trunfo é ser honesto onde o estilo comumente descamba para a vulgaridade:
“(...) Reparei então que a meu lado o colchão se amolgava ainda com as formas do corpo de Carolina. E, abruptamente, a presença do pecado na cova da cama, no vago aroma quente do quarto, na dura memória da alvura íntima de Carolina, desvairou-me de relinchos os cavalos do sangue. Uma fúria maligna, de longos olhos cerrados, abocanhou-me pelo pescoço, atirou-me contra mim próprio como contra uma parede... E ali fiquei por fim, enrodilhado na cama, aturdido de ruína, de fadiga e de silêncio (...)”.
Manhã submersa está longe de ser literatura anticatólica; o livro, de uma singeleza enganosa, é na verdade um exercício de memória bem-sucedido, porque é sincero. É exemplar.
“(...) Porque o peso da dor nada tem que ver com a qualidade da dor. A dor é o que se sente. Nada mais. Desisto definitivamente de me iludir com a minha força de adulto sobre o peso de uma amargura infantil. Exactamente porque toda a vida que tive sempre se me representa investida da importância que em cada momento teve. Como se eu jamais tivesse envelhecido. Exactamente
Portanto, a crítica do autor não é contra a Igreja. É antes uma reação às forças que, de todos os lados, advinda de todas as instâncias sociais, oprime o indivíduo. E o maior opressor do homem é o próprio homem, quando este decide, vencido pelas circunstâncias, assentir com a mentira das convenções que a tudo falseia, inclusive a própria religião.
Recepção escrita por Vitor Marcolin. Autor Brasileiro.
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