O Horizonte Açoriano: evasão e aprisionamento
Ensaio escrito por Matilde Lopes
Rebelo, Domingos. (1924). Costa dos Mosteiros [óleo sobre tela]. Museu Carlos Machado
O Arquipélago Açoriano, rodeado da imensidão do horizonte, não pôde escolher o seu sustento, associando-se, desde início, àquilo que o aprisionava: o mar. Este mar, figurado muitas vezes como a prisão dos açorianos, também foi visto, por muitos, como a única saída. Deste modo, pode-se afirmar, num primeiro momento, que o mar apresenta este duplo efeito na vida de cada ilhéu.
Esta duplicidade influenciará profundamente aqueles que sonham ultrapassar a linha do horizonte, ora com neblina ora com a silhueta de uma ilha ao fundo, e procurar recomeçar a sua vida sob outro céu sem o tão familiar «capacete». Esta inquietação evasiva atormenta o espírito do açoriano desde o momento em que vê, pela primeira vez, a espuma a chegar à areia, terminando quando consegue, finalmente, escapar da rocha vulcânica. Porém, é certo que, como povo prostrado a olhar para o mar, o açoriano também tende a sentir-se sufocado pelo infinito, convencendo-se de que deve confiar e, acima de tudo, respeitar o mar, entregando-lhe a sua vida. O doutor Luís Ribeiro, na sua obra Subsídios para um ensaio sobre a açorianidade, refere esta cisma provocada pela constante visão e presença marcada do mar na vida dos açorianos:
«A contemplação do mar põe os homens cismadores, entristece e abate pela monotonia». (Ribeiro, Luís. 1964. Subsídios para um ensaio sobre a açorianidade. Angra do Heroísmo. Instituto Açoriano da Cultura, p. 59)
Na mesma obra, Luís Ribeiro refere um ponto que considero de extrema importância quando escolhemos falar sobre a evasão: a saudade. Esta palavra, intensificada pelo mar, carrega o nosso arquipélago, criando a identidade de um povo:
«O mar é assim mais um factor da indolência, do saudosismo, de tudo o que faz do açoriano um homem emodorrecido e apático». (Ribeiro, Luís. 1964. Subsídios para um ensaio sobre a açorianidade. Angra do Heroísmo. Instituto Açoriano da Cultura, p. 59)
Quando o açoriano escolhe sair da rocha-mãe, seja qual for o motivo, acaba sempre por cair no saudosismo da sua terra perdida, regressando ao arquipélago ou, quando esse regresso não é possível, recriando os Açores onde quer que esteja. Exemplo disto são as festas do Divino Espírito Santo realizadas todos os anos na comunidade açoriana de Fall River, aparentadas como um aumento ou uma reinvenção da religiosidade causada pela necessidade de reviver o espírito açoriano noutro lugar.
Este saudosismo também é patente nos romances incluídos na obra Cantos Populares do Arquipélago Açoriano, do doutor João Teixeira Soares de Sousa, coligida e anotada por Teófilo Braga. Embora o nome do etnógrafo jorgense não marque posse na capa do livro em questão, a verdade é que o trabalho de recolha foi realizado pelo mesmo, por isso, neste caso, defendo a posição do professor João de Almeida Pavão no momento do Prefácio à obra em que refere ser, de facto, estranho Teófilo Braga não ter escolhido incluir o nome de João Teixeira Soares de Sousa:
«É por demais sabido - aliás confessado pelo próprio compilador - que o espólio aqui reunido lhe foi confiado pelo conhecido etnógrafo jorgense, Dr. João Teixeira Soares de Sousa. A carta de Teófilo que abre o volume é comprovativa desse reconhecimento e da justiça devida a quem teve o merecimento da recolha de tão precioso legado. Porém, as palavras de justiça contidas em tal carta não chegam para calar a estranheza de muitos que, como nós, se interrogam sobre o motivo por que, na autoria da aludida compilação publicada por Teófilo, este não teria juntado o nome do seu verdadeiro compilador.» (Soares de Sousa, João Teixeira. (1982). Cantos populares do arquipélago açoriano. Universidade dos Açores, p.15)
De facto, Teófilo Braga tenta defender-se dessa estranheza através da carta que abre a referida compilação:
«Juntar o seu nome com o meu no frontispício da obra, era expor um homem de merecimento incontestável a facecias de folhetim, mas lá chegará a hora em que a justiça hade illuminar a pagina aonde está escripto o nome do fervoroso obreiro, que na bôa confraternidade da juranda, veiu confiar-me as mais bellas e antigas rhapsodias da epopêa legendar portugueza». (Soares de Sousa, João Teixeira. (1982). Cantos populares do arquipélago açoriano. Universidade dos Açores)
Não querendo prolongar esta discussão que deu alvo a uma edição «barata» da obra em questão, sem menção do nome de Teófilo Braga, que circulou na ilha do Faial, a temática do saudosismo está patente num dos romances que compõem estes Cantos Populares, nomeadamente o romance «Dom João da Armada». Neste romance, o saudosismo expressa-se nitidamente logo na primeira estrofe:
«Uns a saltarem p`ra bordo,
Outros no caes a chorar,
Com saudades da terra
Não ouzavam embarcar.»
Todo este romance é composto por inúmeros gritos de lamento que ecoam a saudade por aqueles que se vão sem certeza do seu regresso. No mesmo romance, há uma voz que pede que se deixe ir os mais mancebos, deixando ficar os velhos, parecendo um prenúncio da onda migratória que varreu o arquipélago, em que os mais jovens procuravam melhor destino:
« - Deixae-vos ficar em terra
Homens de maior idade,
Deixae ir a mancebia
Que vae para o mar brigar.»
Além desse saudosismo imanente, o mar também funcionou, desde sempre, como o principal sustento deste povo. Nos primeiros anos do povoamento das ilhas, o sustento advindo do mar era abundante, como refere Urbano de Mendonça Dias na sua obra A Vida de Nossos Avós: estudo etnográfico da vida açoriana através das suas leis, usos e costumes:
«O peixe era abundantíssimo, nos primeiros tempos da vida nestas ilhas.» (Mendonça Dias, Urbano. (1944). A vida de nossos avós: estudo etnográfico da vida açoriana através das suas leis, usos e costumes (1º volume). Tipografia de «A Crença». p. 227)
Urbano de Mendonça Dias, a este respeito, cita Gaspar Frutuoso e as suas Saudades da Terra, de modo a ilustrar com mais clareza a quantidade de pescado que entrava nas embarcações:
«[...] o pescado de toda a sorte, [...] muito ele era tanto nesta Terra que do porto de Santa Iria o levava sebas cheias, em carros carregados dele à Vila da Ribeira-Grande». (Mendonça Dias, Urbano. (1944). A vida de nossos avós: estudo etnográfico da vida açoriana através das suas leis, usos e costumes (1º volume). Tipografia de «A Crença». p. 227)
Embora estas citações sejam exemplo da fartura de víveres, a verdade é que, posteriormente, a situação piorou devido à pesca excessiva, como refere Urbano de Mendonça Dias na mesma obra:
«Não se salgava o peixe, nossos Avós só o comiam fresco, e o que crescia deitavam-no fora, às gamelas cheias. Mas com o correr do tempo tudo escasseou e o peixe veio a faltar também, sendo necessário legislar se sobre seu mercado». (Mendonça Dias, Urbano. (1944). A vida de nossos avós: estudo etnográfico da vida açoriana através das suas leis, usos e costumes (1º volume). Tipografia de «A Crença». p. 228)
Este tempo de escassez também está prefigurado no romance da «Nau Catherineta» que, embora se passe numa embarcação, é um indício do que acontecia em terra:
«Já não tinham que comer,
Já não tinham que manjar;
Botaram sola de môlho
Para a poderem rilhar;
A sola era mui dura
Não a poderam tragar.
Botaram sortes ao acaso
A qual haviam matar!»
Além disso, essa necessidade de matar também poderá advir da constante monotonia que o mar confere à vida dos açorianos, como Raul Brandão indica na sua obra As Ilhas Desconhecidas, falando a propósito da pesca da baleia:
«Mas há principalmente a necessidade de matar, de lutar (numa vida que é mais monótona do que qualquer outra parte - duas vezes monótona pelo mar que os circunda e pelos montes que os entaipam), de vencer as contrariedades e os perigos - sentimento com raízes no mais profundo da alma humana». (Brandão, Raul. (s.d) As ilhas desconhecidas. Editorial Comunicação, p. 108)
Por isso, talvez se possa afirmar que a caça à baleia não tenha começado, propriamente, devido à necessidade de procurar outra forma de sustento - uma vez que, como já se referiu, o pescado era abundante - mas, principalmente, pela busca de aventura, de modo a quebrar a tão familiar monotonia.
De facto, a quantidade de romances cuja temática é o mar ou a pesca é quase nula. Esta ausência pode ser justificada se partirmos do princípio de que os pescadores não se mostravam interessados em cultivar as letras devido a vários fatores sociológicos, - que não considero estar no lugar de os elencar - como refere Luís Ribeiro:
«[...] não há um cancioneiro marítimo, o que se explica pela fraca propensão da gente dessa classe para a poesia.» (Soares de Sousa, João Teixeira. (1982). Cantos populares do arquipélago açoriano. Universidade dos Açores, p.59)
Porém, diversos poetas açorianos trabalharam a temática do mar, como Antero de Quental, Roberto de Mesquita, Vitorino Nemésio ou Pedro da Silveira, cuja obra é reveladora dessa duplicidade que se manifesta de forma particular em cada um dos poetas mencionados.
No caso de Antero de Quental, o mais célebre poeta açoriano, o mar tem esse efeito de aprisionamento na medida em que deixa o homem num marasmo contemplativo, proporcionando pensamentos desconcertantes e inquietos, como se pode verificar no poema «Oceano Nox»:
«Junto do mar, que erguia gravemente
A trágica voz, enquanto o vento
Passava como um vôo do pensamento
Que busca e hesita, inquieto e intermitente,
Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas vagamente…
Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que idéia gravitais?
Mas na imensa extensão, onde se esconde
O Inconsciente imortal, só me responde
Um bramido, um queixume, e nada mais…»
Esta paisagem, pode ser considerada como um locus horribilis mental na medida em que é ele próprio que transfigura uma paisagem, aparentemente, simples composta pelo mar e por um céu coberto de nuvens, ao que o poeta passa a considerá-la quase como um indício trágico. Esta transformação é movida, essencialmente, pelo psicológico do próprio sujeito poético, uma vez que, procurando respostas às suas inquietações no meio em que o rodeia, o poeta acaba por se desiludir quando não as encontra; vendo-se em frente à imensidão, ao infinito, que tanto perturba Antero nos seus primeiros anos de formação:
«Mas nos primeiros tempos universitários não é ainda a filosofia da história portuguesa que o interessa; é o sentido (herculiano) de uma grandeza imensurável para além da vida comum, a transfiguração da paisagem a um sopro tempestuoso do Eterno que bafeja no Homem uma correspondente grandeza de atitudes morais.» (Saraiva, A. J., Lopes, Óscar. (2017). História da literatura portuguesa. Porto Editora.)
Este «Eterno» é intensificado, mais uma vez, pela contemplação do mar que culmina numa sucessão de pensamentos que, talvez, não se manifestassem na mente do poeta sem a presença avassaladora do horizonte.
Embora o tema do mar não apareça com a frequência que se podia esperar num poeta açoriano, a verdade é que, das poucas vezes que ele é mencionado a duplicidade do mesmo é explícita. No caso do poema já mencionado, a questão do aprisionamento é evidente, porém, o poema «Redenção» apresenta-nos o desejo de evasão que a contemplação do mar proporciona, nomeadamente nas duas últimas estrofes:
«Um espírito habita e imensidade
Uma ânsia cruel de liberdade
Agita e abala as formas fugitivas.
E eu compreendo a vossa língua estranha,
Vozes do mar, da selva, da montanha…
Almas irmãs da minha, almas cativas!»
Apesar de a poesia de Antero tentar eliminar quaisquer marcas biográficas, como o professor Fernando Pinto do Amaral refere no prefácio à obra completa do autor, de facto parece haver um quê de experiência biográfica nestas estrofes. Estes versos transcrevem essa tal dualidade concebida pelo mar, tão patente na vida dos açorianos e, como micaelense, Antero, de alguma forma, também sentia essa mesma força que ora desalenta ora obriga a essa fuga mencionada no poema.
Utilizando as «almas cativas» de Antero como fio condutor, Roberto de Mesquita, poeta quase esquecido, conseguiu de forma singular traduzir a condição de ilhéu como muitos outros escritores não ousaram fazer:
«[...] mais restritamente, situa-se no quadro da literatura açoriana pela expressão admirável da condição vivencial de ilhéu exilado no Atlântico [...].» (Prado Coelho, Jacinto do. (1973). «Roberto de Mesquita e o simbolismo». In Mesquita, Roberto de, Almas cativas e poemas dispersos. p. 9. Edições Ática.)
No poema «Olhando os Longes», os efeitos da observação intensiva do mar, bem como a experiência das condições atmosféricas da ilha, estão claramente expressos logo na primeira estrofe em que o eu poético se mostra quase esmorecido enquanto admira a calmaria do mar, tão rara no ocidente do arquipélago:
«Aplacou-se o ardor do dia tropical,
É a tarde dormente um veludo afago,
Sob o lento fanar do oiro vesperal
Dorme espelhado o mar como um imenso lago.»
Além disso, Roberto de Mesquita também personifica a cisma e a melancolia nos pinheiros, intensificando o efeito que o mar exerce sobre cada criatura, cada coisa, que se depara com ele.
«Recortados no céu vermelho do poente
Dois pinheiros num lombo avultam isolados
E parecem olhar os longes, vagamente,
Do mágico esplendor da tarde deslumbrados…
Ao vê-los lá no alto extáticos, dir-se-ia
Que as almas lhes penetra essa melancolia
Que vem no fim da tarde ungir a imensidade.
Eu creio que os absorve um sonho indefinido,
Que eles cismam, fitando o mar de aço polido,
E um vago para além relembram com saudade…»
Neste sentido, é curioso que, no mesmo poema em que se fala da cisma causada pelo mar, também se expressa o desejo de ir «para além». Este anseio, embora quase despercebido numa primeira leitura, encontra presença nos «longes», podendo-se afirmar que estes sejam o motivo que deixou o poeta neste estado de contemplação. Deste modo, esta duplicidade prisão/saída tão característica do mar açoriano, encontra uma comunhão neste poema.
Assim, creio que Roberto de Mesquita seja o escritor açoriano que soube, como ninguém, trabalhar este duplo sentido que o mar carrega na alma de cada ilhéu, de forma tão subtil e, ao mesmo tempo, embalada pelo meio em que se insere, como Jacinto do Prado Coelho refere no prefácio da obra:
«Até a singeleza dos versos se coaduna bem com a modéstia do meio (a vida, o campo, o cerco do mar) onde o tempo não corre, só a poesia salva da estagnação, transfigurando-a». (Prado Coelho, Jacinto do. (1973). «Roberto de Mesquita e o simbolismo». In Mesquita, Roberto de, Almas cativas e poemas dispersos. p. 10. Edições Ática.)
Já noutro poema, «O Último Olhar», Roberto de Mesquita explora, de modo mais explícito, o sentido evasivo que o mar pode prefigurar. Neste poema, mais uma vez o mar é visto como um infinito de água que se estende no horizonte, porém esta imensidão não culmina na cisma explorada no poema anteriormente mencionado, mas, antes, é vista como a única saída para aqueles que, como o moço apresentado no poema, procuram uma vida mais favorável noutras paragens:
«Linda tarde de estio, O mar infindo
É um sereno lago transparente.
Um enorme vapor que vai saindo
Vomita negro fumo ansiosamente,
E sobre as planas águas deslizando
Um silvo solta, como adeus choroso…
À terra vai fugindo e saltitando,
Como híbrido monstro silencioso.
Um passageiro, um moço, debruçado
Na amurada, fita pensativo
O seu olhar de lágrimas nublado
Num alto monte ao longe fugitivo.»
Neste sentido, a partida do moço faz com que a saudade desperte nele recordações dos dias que passara na ilha. Este saudosismo tão familiar a cada açoriano que parte, é explorado no poema em questão, no que considero ser a segunda parte do mesmo, no momento em que o moço vê, pela última vez, aquela terra que o viu crescer e que, a partir deste momento, não passa apenas de uma memória perdida no meio da «amplidão sem fim do mar»:
«Nessa nuvem distante e fugidia,
Feliz criança, alegre, sem cuidados,
Ele passava outrora tanto dia
Entre o mugir nostálgico dos gados!
E ouvindo o cantar da passarada,
Como era lindo ver daquela altura
Lenta cair a tarde sossegada
Sobre a terra coberta de verdura!...
O moribundo Sol lançava a medo
Seu último clarão saudoso e brando,
Casas brancas por entre o arvoredo
Pereciam extáticas cismado…
Deitado sobre a relva então passeava
Seu infantil olhar, puro, inocente,
Por essa paisagem que adorava
E que fugia agora velozmente.
Perdeu-se ao longe a terra; morre o dia;
E saudoso e pálido luar
Em redor do vapor só alumia
A tétrica amplidão sem fim do mar…»
Também sobre esta temática do abandono da ilha, Vitorino Nemésio debruça-se sobre o saudosismo, expresso no poema «O Paço do Milhafre»:
«À beira de água fiz erguer meu Paço
De Rei-Saudade das distantes milhas:
Meus olhos, minha boca eram as ilhas;
Pranto e cantiga andavam no sargaço.
Atlântico, encontrei no meu regaço
Algas, corais, estranhas maravilhas!
Fiz das gaivotas minhas próprias filhas.
Tive pulmões nas fibras do mormaço.»
Nestas duas primeiras quadras é evidente a tentativa de replicar a terra natal noutro local, de presumir, completamente diferente da ilha de onde o poeta partiu. A partir desta interpretação é evidente que o poeta, ao descrever a ilha através das transformações que concretiza no local onde ele se encontra, cria a sua própria ilha; ou seja, o que ele concretiza, mesmo com as características que distinguem a sua terra de todas as outras, é a idealização da sua ilha noutro local, impulsionado pela saudade que sente pela mesma.
Além do saudosismo muito presente nas primeiras poesias de Nemésio, o poeta terceirense também explora a cisma causada pelo mar no poema «Para que me deixem»:
«Deixem-me só no mar, não aluguem o bote:
Medi o salto e o mundo antes de me atirar.
Assim, não há ninguém que me derrote:
Afogado ou flutuante, hei de chegar.
[...]
E vou, lavado em mar e enxuto em ossos,
Buscar a minha estrela aos céus de oeste:
De tanta água, levo os olhos grossos;
A tristeza de ser a alma me veste.
[...]
Oh vida, desaparece
No verde e doce mar mexido!
Já, devagar, para e arrefece
Meu coração, coral caído.»
Nestes versos, embora a prostração não seja evidente numa primeira leitura, está embrenhada no desejo que o sujeito poético sente em se deixar morrer no mar, quase enumerando a essência da sua própria alma com elementos marinhos. Logo, o poeta deseja tanto o mar, e pertencer ao mar, que considera que a única maneira de concretizar esse desejo é, de facto, unindo-se a ele, neste caso, através de um ato final e derradeiro: a morte. Além disso, considero que este desejo advém, essencialmente, da cisma que o mar provoca na alma do eu lírico, tornando a prostração de tal modo intensa que o poeta acaba por desejar implementar esse ato final.
Outro poeta que trabalha com muita singularidade a partida da ilha é Pedro da Silveira, nome central nos estudos de literatura açoriana (tema extremamente controverso que não me debruçarei neste ensaio), contribuindo com a coletânea Antologia de poesia açoriana. Deste modo, no poema «Saudade» Pedro da Silveira refere a que poderá ser a sua experiência de saída da ilha das Flores, descrita por elementos muito característicos do ambiente insular:
«Onde estará agora a que ficou no cais
quando eu parti?
Tinha o olhar cheio de lágrimas
e com o lenço abanava.
Os garajaus tinham chegado há pouco
com o seu coro de alegres pios.
Na terra um ar todo de festa:
era o Verão anunciado.
Um fio de fumo fluía da chaminé do vapor,
e sereia apitou o último adeus
- e vim-me embora.
Cada vez mais longe a terra fugia,
fugia-me… - e a noite
era aquele lenço branco
escurecendo nos meus olhos.
………………………………..
Onde estará agora
a que deixei no cais, e o lenço dela
a despedir-se?...»
Desta forma, a impossibilidade de permanecer na ilha é algo avassalador para o sujeito poético que vê a sua amada despedir-se dele no cais, enquanto só lhe resta olhar, impotente, por uma última vez, a amada, a sua terra, e tudo o que faz com que esta se distingue de todos os restantes locais. Além disso, o poeta percebe que, apesar da sua partida, tudo na ilha permanecerá de igual modo, ou seja, a sua presença é quase insignificante para o funcionamento do microcosmos da ilha.
Relativamente ao abatimento que a vida insular proporciona, no poema «Ilha», este tema é extremamente evidente em toda a composição poética:
«Só isto:
O céu fechado, uma ganhoa
pairando. Mar. E um barco na distância:
olhos de fome a adivinhar-lhe à proa
Califórnias perdidas de abundância.»
Aqui, a familiar cisma promove o pensamento sobre a emigração que tanto afetou a sociedade açoriana, com particular ênfase no final do século XIX até à segunda metade do século XX, em que muitas famílias procuraram a América do Norte para recomeçar as suas vidas. Neste caso, o horizonte açoriano também tem um papel preponderante neste desejo de utilizar o mar como um meio de escape à vida insular.
Na sua obra já citada Antologia de poesia açoriana, Pedro da Silveira apresenta-nos um vastíssimo leque de poetas açorianos, muitos deles esquecidos, que, de certa forma, traduzem a experiência das ilhas de forma exímia, como é o caso de Miguel Street de Arriaga na primeira parte do poema «O Canto do Baleeiro», em que o autor mostra, claramente, ter saudades da sua ilha Terceira, chegando a chamá-la de «pátria», como se ele se sentisse mais açoriano do que, propriamente, português:
«Da pátria tenho saudades,
Do meu lar, onde nasci,
Onde os meus tempos de moço
Por largos anos vivi.
Oh! desliza, baleeira,
Sobre as águas desse mar,
E junto às rochas bravias,
Amiga, vai-me deitar.
Que este viver já me cansa,
Sempre mares, sempre céus!
Correndo espaços sem fim
Que só conhece o meu Deus!
Ó minha pátria risonha,
Que há tantos anos deixei.
Quem vagara por teus ermos,
Que nunca d`alma apaguei!
Apraz-me o sino tangendo
Quando nasce e morre o dia,
Gosto do ruído confuso
Que lá dos cerros sentia.»
Ao longo deste poema são evidentes as referências à vida insular, como é o caso da «baleeira», bem como da saudade da ilha. Mesmo quando essa vivência sufoca o poeta, o que ele mais deseja é regressar à sua terra natal porque, de certa forma, todos os elementos que caracterizam a sua infância parecem ter mais relevo na memória do poeta, sendo a causa do anseio pelo regresso.
Também optando pelo tema da saudade, Eduíno de Jesus no «Cais da Saudade» relembra do momento da sua partida:
«No cais da saudade
Morre um sonho mais:
Sou eu, de sonho, indo
Para nunca mais.
Ponho os olhos de água
Quando morre um sonho:
Sal de água no rosto
Para um outro sonho.
A mágoa vem nesse
Breve fio de água:
Choro um sonho e ponho
Outro sonho à água.»
Nesta composição poética, o sujeito lírico, ao contrário dos poemas anteriormente mencionados, trabalha o conceito de uma vida desfeita e, neste caso, impossibilitada de se concretizar, na ilha. Neste poema, é o abandono da terra natal que mata o sonho do poeta, como se esta saída não fosse, de modo algum, benéfica para a vida do mesmo, embora esta ideia possa estar reforçada devido, mais uma vez, ao saudosismo.
Concluindo, ao longo deste ensaio, pretendi demonstrar como a duplicidade prisão/evasão está presente na vida de cada ilhéu, e como esse duplo sentido é explícito na poesia dita açoriana. Como se pôde verificar, essas duas temáticas estão presentes em diferentes poemas de um mesmo autor, ou seja, quando estes poetas escrevem sobre o mar e sobre a sua relação com o mesmo, estas duas temáticas são permanentemente mencionadas. Assim, atrevo-me a afirmar que o mar tem sempre este duplo sentido na vida de cada açoriano, fazendo com que o aprisionamento e a liberdade vivam sempre em modo de dependência um do outro: nenhum açoriano olha para o horizonte apenas com um destes conceitos em mente porque, em dada altura percebe que, ao sair da ilha, a necessidade de regressar cresce a cada dia que passa.
Bibliografia
Ribeiro, Luís. (1964). Subsídios para um ensaio sobre a açorianidade. Instituto Açoriano da Cultura.
Mendonça Dias, Urbano. (1944). A vida de nossos avós: estudo etnográfico da vida açoriana através das suas leis, usos e costumes (1º volume). Tipografia de «A Crença».
Soares de Sousa, João Teixeira. (1982). Cantos populares do arquipélago açoriano. Universidade dos Açores.
Brandão, Raul. (s.d.). As ilhas desconhecidas. Editorial Comunicação.
Saraiva, A. J,. Lopes, Óscar. (2017). História da literatura portuguesa. Porto Editora.
Mesquita, Roberto de. (1973). Almas cativas e poemas dispersos. Edições Ática.
Quental, Antero de. (2001). Poesia completa. Publicações Dom Quixote.
Nemésio, Vitorino. (2018). Poesia (1916-1940) (volume I). Imprensa Nacional.
Silveira, Pedro da. (s.d.). Fui ao mar buscar laranjas (livro 1). Direcção Regional da Cultura.
Silveira, Pedro da. (1977). Antologia de poesia açoriana. Sá da Costa Editora.
Excelente partilha!! Como ilhéu que sou, mas que vivo fora da ilha (S. Miguel), dei por mim num momento de introspecção e reflexão... Muito obrigada, Matilde pela tua escrita!!
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