Recepção| O Mandarim (de Eça de Queiroz)
Recepção de Vitor Marcolin.
No Brasil, chamamos “resenha” a publicação cuja finalidade é analisar e criticar brevemente um texto ou livro — geralmente de literatura. No entanto, acho mesmo que a forma portuguesa “recepção” vença por ser mais correta, por exprimir melhor a atmosfera de entusiasmo em torno da chegada de uma nova obra: nós a
É inegável que Eça seja um expoente do Realismo: toda a energia do escritor é colocada a serviço da análise do homem que vive no espaço material e moral disto a que chamamos sociedade moderna. O que implica perceber na Humanidade as consequências do materialismo, do ateísmo, do hedonismo e, em resumo, do estilo de vida do homem que chutou para longe do seu horizonte de consciência a dimensão transcendente da realidade. Se Deus não existe, então tudo é permitido, inclusivamente viver incrédulo diante de toda e qualquer manifestação de bondade, de amor ao próximo. No entanto, do alto dos seus 35 anos de existência — depois de já ter publicado O Crime do Padre Amaro —, o autor aparentemente muda de tom: quer escrever fantasia. «Mas sobriamente [...] misturando-lhe sempre uma moralidade discreta». É então que ele conta, em primeira pessoa, a história do amanuense Teodoro, funcionário medíocre do Ministério do Reino. Estamos em Portugal dos anos 1880 — em ambos os lados do Atlântico ainda vigora a Monarquia.
O primeiro sinal da pequenez moral do protagonista é a forma como ele caminha: encurvado, «do muito que verguei o espinhaço, na Universidade, recuando como uma pega assustada diante dos senhores Lentes; na repartição, dobrando a fronte ao pó perante os meus Directores Gerais [...]».
Mas a reviravolta na trama acontece justamente a partir da quebra do crivo realista tão característico do autor. Num livro velho, digno de algum alfarrabista orgulhoso do seu ofício, Teodoro registra este “período singular”:
É com ironia que se acomoda no ateísmo confortável da burguesia: «Céu e Inferno são concepções sociais para uso da plebe — e eu pertenço à classe-média». Mas, facilmente, aceita a ajuda do outro mundo, se este lhe proporcionar melhora nas condições de vida material. E, para encorajá-lo a tomar a decisão que mudaria para sempre a sua vida, Teodoro recebe a visita de um «indivíduo corpulento, todo vestido de preto, de chapéu alto, com as duas mãos calçadas de luvas negras gravemente apoiadas ao cabo de um guarda-chuva». A criatura não parecia fantástica, «era tão classe-média como se viesse da minha repartição». Era o próprio Tinhoso que, muito engenhosamente, como lhe é próprio agir, convence o amanuense a fazer retinir a campainha e, ao fazê-lo, Teodoro põe fim à vida do Mandarim (cujo nome é Ti-Chin-Fú).
Magicamente, de posse da fortuna do chinês, o sujeito agora trata de gozar a vida, fazendo tudo o que antes, preso ao ordenado de amanuense, jamais conseguiria. Vai a bordéis, compra joias, dá jantares; chega a abandonar sua humilde hospedagem numa pensão a fim de viver num palacete. Certo dia, saindo de uma joalheria, o rico Teodoro deixa à mostra toda a pobreza do seu espírito:
«À porta, uma pobre toda de luto, com o filho encolhido ao seio, estendeu-me a mão transparente. Incomodava-me procurar os trocos de cobre por entre os meus punhados de ouro. Repeli-a, impaciente: e, de chapéu sobre o olho, encarei friamente a turba».
Mas, no instante seguinte, ao avistar o seu antigo chefe, o Director Geral, Teodoro, mesmo com os bolsos apinhados de ouro, sem a mínima necessidade de trabalhar, acha-se «com o dorso curvado em arco e o chapéu cumprimentador roçando as lajes». Seus milhões não tinham lhe dado “verticalidade à espinha”.
Na condição de homem rico, Teodoro é por todos bajulado. Os jornais não economizam nos adjetivos: “sublime”, “celeste” e até “extra-celeste Sr. Teodoro”. Mas, algo o perturba: é o remorso pela morte do Mandarim, a consciência de ter «assassinado um velho» — e isso com o simples tinir de uma campainha. Assim, cheio de escrúpulos, o homem decide aplacar a culpa com obras materiais — chega a financiar a construção de uma catedral dedicada a Nossa Senhora, e consagrada por um bispo. Esforços vãos.
E, então, chegamos ao ponto de virada na história, Teodoro parte para a China com a intenção declarada de encontrar a família do finado Ti-Chin-Fú, e fazer-lhe caridade. Não posso me omitir em dizer que, nessa altura do livro, Eça constrói uma das mais deliciosas cenas de perseguição e fuga da literatura lusófona (lembro-me de ter lido algo parecido em Robinson Crusoé; mas, admito, Defoe é nativo de outra pátria-língua).
No Império do Meio, o protagonista vive algumas peripécias: um romance rápido com a “generala” russa que integra a comitiva de apoio; e é também acolhido por missionários lazaristas, que lhe salvam a vida. Mas, por conta de confusões astrológicas (que o leitor desta recepção terá de ir ao livro para descobrir quais são), não encontra a família do dito cujo Mandarim. Assim, convencido de que jamais poderá tirar de sobre os ombros o peso da culpa, Teodoro decide voltar à Europa. Em Portugal, durante os primeiros dias, vive à moda antiga: como amanuense pobre e sem prestígio. O sujeito perde as esperanças, mas não perde a engenhosidade: a verdade é que ele esconde a fortuna, só para ver a reação das pessoas — que, sem surpresa, tratam-no com pleno desprezo.
Quando, por fim, decide abraçar o estilo de vida que o dinheiro lhe possibilita, encontra o objeto da sua verdadeira busca: a justificativa para os seus atos egoístas. Hipócrita, o mundo torna a bajular o amanuense rico que, num arroubo de franqueza, reage à altura: «E o meu desprezo pela humanidade foi tão largo, que se estendeu ao Deus que a criou». Infeliz, Teodoro aprendeu a lição: «Só sabe bem o pão que dia-a-dia ganham as nossas mãos: nunca mates o Mandarim!».
Ora, mais do que o porta-voz, Teodoro é a própria consciência do autor que, escondendo-se sob uma capa de sátira, de ironia, critica o vício alojado em sua própria alma. O homem moderno reconhece que o amor devido a Deus e ao próximo é o único caminho para a felicidade plena; mas sua vontade, viciada, escolhe o bem menor — que não exige sacrifício: o estilo de vida materialista e hedonista. Vemos assim que esse interlúdio fantasístico na trajetória do escritor realista é, portanto, a forma que ele encontrou — adotando outro tom, outro estilo, outro enfoque — para confessar sua culpa por desobedecer à verdade conhecida. O caminho do arrependimento e da redenção é pavimentado por cacos de vidro, pedregulhos e brasas incandescentes; mas e quanto à dor da ilusão de se achar que não é preciso trilhá-lo? A morte do Mandarim vai ficar por isso mesmo?
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