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A mostrar mensagens de maio, 2026

Absolvição

Conto de Vitor Marcolin.    Começou quando senti algo quente escorrendo pelo meu antebraço direito. Não senti dor; estava confuso. Tudo era exaustão. Havia a urgência de continuar correndo. Avancei até aos escombros de uma casa. Vasculhei o entorno: vi roupas de crianças espalhadas pelo chão. Pisei na cabeça de uma Barbie . Seu rosto estava sujo, e só lhe restava um tufo de cabelos loiros. De repente, mais disparos. Tive medo. Sentia o coração pulsando nas têmporas. Comecei a ter pensamentos estranhos: quis atravessar o muro, quis fundir-me àqueles tijolos. “Um portal para um lugar de paz”. O Xavier gritava o meu nome e me dava ordens; estava enlouquecido, o coitado: “Continue atirando, porra!”. Mirei no topo da colina e apertei o gatilho. Meu dedo ensanguentado não pôde sustentar o fogo por trinta segundos: escorregou.   E então veio a dor. Abaixei a arma e me encolhi, ainda junto ao muro. A metralhadora desaparecera: só havia o meu braço. Tentei respirar fundo, mas...