Absolvição

Conto de Vitor Marcolin. 

 Começou quando senti algo quente escorrendo pelo meu antebraço direito. Não senti dor; estava confuso. Tudo era exaustão. Havia a urgência de continuar correndo. Avancei até aos escombros de uma casa. Vasculhei o entorno: vi roupas de crianças espalhadas pelo chão. Pisei na cabeça de uma Barbie. Seu rosto estava sujo, e só lhe restava um tufo de cabelos loiros. De repente, mais disparos. Tive medo. Sentia o coração pulsando nas têmporas. Comecei a ter pensamentos estranhos: quis atravessar o muro, quis fundir-me àqueles tijolos. “Um portal para um lugar de paz”. O Xavier gritava o meu nome e me dava ordens; estava enlouquecido, o coitado: “Continue atirando, porra!”. Mirei no topo da colina e apertei o gatilho. Meu dedo ensanguentado não pôde sustentar o fogo por trinta segundos: escorregou.  


E então veio a dor. Abaixei a arma e me encolhi, ainda junto ao muro. A metralhadora desaparecera: só havia o meu braço. Tentei respirar fundo, mas me engasguei com a areia; decidi me deitar de lado, afastando o rosto do chão. Eu bufava. Tive de manter os olhos fechados. A areia tornava tudo mais difícil, desviava minha atenção. Senti os grãos entre os meus dentes, na minha língua seca, na garganta. De novo os pensamentos confusos. Não, não eram pensamentos; eram imagens, visões, presenças: aquele homem agarrado ao meu braço era russo. Só podia ser russo. Acho que o matei. “Quantos homens eu havia matado?”. O russo tinha hálito de Coca-Cola. “Como isso era possível?”. Ele usou sua Ka-Bar para cortar o tecido sobre a área onde eu fora baleado. A dor recrudesceu. “Não desmaia!” Era a voz do Xavier.  


Fui arrastado até um lugar seguro. Eu queria que fosse um lugar seguro; queria que estivéssemos longe, muito longe daquele Inferno. Bom Xavier: soube estancar o meu sangramento. Não desmaiei. Bebi água pela primeira vez naquele dia, e comi alguma coisa pastosa. Tudo era urgência. Ouvia-se sons de tiros, de bombas, de ordens ásperas no idioma do inimigo. Xavier desapareceu por um momento. Voltou gritando: “Toma aqui a sua arma! Você defende essa área, eu preciso avançar até ao posto B. Depois dou sinal para você avançar. Fica alerta!”. Meu braço direito estava dormente, mas a dor sumira; e eu não sentia mais fome ou sede. “Consigo sustentar o fogo, meu amigo. Avance!”. Isso foi um grito, um murmúrio ou um pensamento? É difícil saber. Xavier estava em posição prona, seu corpo fundia-se aos escombros. Então, como precisava avançar, levantou ligeiramente a cabeça. Era preciso mirar e atirar, atirar e atirar. Vimos alguns dos nossos amigos. Eu devia permanecer ali. Xavier quis seguir em direção à nossa equipe.  


Ouvi o som de um impacto abafado, surdo. Meu rosto estava ensanguentado. Mas parecia haver algo mais: uma gosma quente e pegajosa. Comecei a gritar: “Xavier! Xavier!”. Arrastei o que sobrara do meu amigo para dentro de uma fenda; quis enterrar seu tronco ali mesmo. Comecei a cavar aquele chão pedreguento com as próprias mãos. A certa altura, percebi que meus dedos estavam esfolados; tinha-os em carne viva. “Russos malditos!”. Foi aí que me veio a ideia de me juntar ao meu amigo. Não sei precisar o tempo que levei até conceber aquele plano, talvez duas horas. O corpo de Xavier já estava frio quando deixei a proteção dos escombros. Eu não usava capacete. Abandonara minha arma.  


“Como deve ser a experiência da morte?”. Imaginava que levar um tiro de fuzil na cabeça fosse como cair no sono. Um adormecimento súbito. Queria descobrir. Caminhei. Notei que havia árvores ali, eram macieiras. O jardim — assim como a casa — fora quase completamente destruído pelos bombardeios. “O que seriam aqueles arbustos?”. Lembro-me de que sorri quando me aproximei: era uma framboeseira. Olhei para as minhas mãos: “Sangue?”. Não. Era doce. Sumo de fruta madura.  


Pensei nos homens que eu matara: quantos? Talvez trinta. Teriam sido cinquenta se eu tivesse atirado aquela granada no bunker inimigo. Xavier matara mais do que eu. Trinta é um número assustador. Se a maioria daqueles homens fosse de pais de família, então seriam quase trinta famílias. Trinta mulheres e, talvez, noventa crianças. Quantas pessoas? Aproximadamente cento e cinquenta. Uma pessoa não é uma ilha; uma família também não. E quanto aos amigos? Calculei então que por minha causa, cerca de mil pessoas choraram seus mortos. Mas esse número deve ser multiplicado por milhares, considerando os colegas de escola das crianças. Milhares? Não, milhões. Uma nação inteira a chorar de tristeza por minha causa.  


Quando tornei à consciência, estava deitado numa cama de hospital. À minha direita, devia haver vinte leitos iguais ao meu; sobre cada um deles, um moribundo. À minha esquerda, uma enorme janela: no jardim do hospital, uma macieira. Tive a vaga impressão do voo distante de um passarinho. Chorei feito criança ao chegar a minha vez. O padre foi muito compreensivo; abraçou-me demoradamente — então chorei mais e mais. Lavei a alma. Meu braço direito ainda doía. O sacerdote pronunciou as palavras da absolvição em latim. Contrito, fiz o sinal da cruz. Respirei fundo e, poucos minutos mais tarde, entreguei-me àquele sono delicioso. 


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