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Deambulação em Cesário e Sá-Carneiro: escrita e vida

Deambulação, de acordo com o Dicionário da Língua Portuguesa organizado pela Academia das Ciências de Lisboa, caracteriza-se por ser um «ato de vaguear de um lado para outro, sem direção preestabelecida, nem ponto de chegada ou de paragem obrigatória» . A partir desta acepção podemos, à partida, aferir que Cesário Verde não era um deambulador, mas sim Mário de Sá-Carneiro.  Deste modo, embora Cesário Verde tenha, efetivamente, passado a sua vida a percorrer as ruas da baixa de Lisboa, a verdade é que só se limitava a isso, a percorrer, a atravessar aquelas ruas de uma ponta à outra com um propósito em mente e com um trajeto definido; o contrário da deambulação que Mário de Sá-Carneiro realizava, já que este andava errante pelas mesmas ruas por onde Cesário andou mas também, e essencialmente, pelas ruas de Paris, parando por acaso de café em café, sem rumo, sem um propósito preestabelecido. A existência ou a falta de um propósito inerente nas deslocações dos dois poetas em quest...

Que mal lhe pergunte

       A s avós, essas criaturas maravilhosas. Em época de Natal, o amor delas assume outra forma material: a atmosfera de panetone caseiro saído do forno. A receita é antiga, remonta aos tempos da bisa, mas impõe justa derrota às fórmulas artificiais dos Bauducco, Santa Luzia ou da seção gourmet dos Cacau Show — cujo preço, aliás, só encarece a cada ano. Confiantes, dizemos que conhecemos as velhinhas quase tão bem quanto elas mesmas nos conhecem, mas um elemento de surpresa sempre aparece. O que é um trunfo.        Certo dia, à tardinha, me surpreendi sentado no sofá da sala da minha vó. Assistíamos  à TV. Coisa rara, porque particularmente detesto televisão. Filme, só no cinema e Smart TV só para alguns canais no YouTube. Não tenho ideia do valor quantitativo da audiência desses canais, mas sou daqueles que assistem ao “Manual do m...

Carris que arfam

  Por esta altura do campeonato, já havia passado o entusiasmo de Pedro com as viagens de comboio, hoje intermináveis. Avesso à epidemia dos fones de ouvido, qual Goldstein do domínio dos auriculares no mundo, restava-lhe a paisagem, outrora preenchida por um rio, fábricas, muralhas de casas e pelo céu da manhã que se abria, formoso, para si. Hoje, resigna-se a ver as fábricas, que sujam e estrangulam o seu céu. Não contava Pedro ter de ir à Faculdade a um sábado, mas uma avaliação de Cálculo exigia-lhe isso mesmo. À chegada, estação vazia. Comboio? Quase desoladoramente apocalítico. Ou seja, mais uma de tantas viagens, mas esta só. Duas paragens antes do seu destino final, ouviu-se o ranger dos carris mais vincadamente e Pedro vê surgir a revisora. Espantou-se, pois não via Rute há muitos anos (três anos são uma eternidade nestas alturas…) e não previu que a reencontrasse a policiar bilhetes ou passes. - Como vai tudo? - A andar, sim. - Como vai a Bia? - Em casa del...

Um breve estudo sobre as referências à rainha santa na literatura portuguesa

                                                                                                                                                                  Como o tempo era passado, Nos jardins, no monte e prado, De rosas e toda a flor, El-rei, cheio de piedade, Nas rosas da caridade Viu a bênção do Senhor! João de Lemos ( 1819 -1890) in “As Rosas de Santa Isabel”   A figura da Rainha Santa Isabel de Portugal mantém uma posição de destaque na memória coletiva portuguesa, e, esta proemi...