Que mal lhe pergunte
As avós, essas criaturas maravilhosas. Em época de Natal, o amor delas assume outra forma material: a atmosfera de panetone caseiro saído do forno. A receita é antiga, remonta aos tempos da bisa, mas impõe justa derrota às fórmulas artificiais dos Bauducco, Santa Luzia ou da seção gourmet dos Cacau Show — cujo preço, aliás, só encarece a cada ano. Confiantes, dizemos que conhecemos as velhinhas quase tão bem quanto elas mesmas nos conhecem, mas um elemento de surpresa sempre aparece. O que é um trunfo.
Acontece, porém, que a ternura da velhinha me fez suspender o senso crítico por algum tempo, e eu fiquei lá, sentado no sofá, ouvindo os juízos do repórter que se dizia “jornalista”. O desgraçado não parava de falar. De repente, todo um panorama do mundo — com o Brasil do IBGE ao centro — começou a ser delineado bem ali, diante dos nossos olhos. A princípio, ela ficava me olhando de soslaio, como quem dissesse: “Esse menino não tá achando ruim tanta porcaria?!”. Não, minha vó, não acho ruim estar aqui em sua casa; faz tempo desde a última vez que vim. Esse homem da TV não me ofende. Ele é um tolo vaidoso que só quer agradar ao chefe e àqueles seus irmãos de ideias, tolos e vaidosos como ele. Fiquemos aqui, minha vó; não tem problema.
Às vezes meu olhar se voltava para aquele quadro na parede, bem próximo à TV, e para os pequenos retratos de família sobre o rack (disse algumas malcriações quando soube que os de casa tinham trocado a velha estante de madeira maciça por aquele rack vagabundo). Mas o olhar que importava mesmo era o dela. E com aquele seu tom de voz meigo e perspicaz, ela disse:
— “Que mal lhe pergunte”.
— “Pode perguntar, vó”.
— “Como é que a gente pode saber se tudo isso é verdade?”.
— “O quê? Essas coisas da TV?”.
— “Justamente! Tem como saber se isso é verdade? Eu quero dizer, se realmente são fatos?”.
— “Olha, vó, honestamente eu não sei”.
Fui sincero. O jornalista matraca-trica descrevia as novas decisões do ministro Alexandre de Moraes; depois, em ato contínuo, começou a falar sobre economia: inflação, aumento de impostos; clima: ciclone extratropical no Sul, tempestade e apagão em São Paulo; violência: aumento de latrocínios na capital e recrudescimento da luta do MST por “justiça social” na zona rural; geopolítica: Trump ameaça varrer a Venezuela do mapa, Maduro está para cair; guerras e rumores: drones-bomba russos caem no subúrbio de Kiev, uma das explosões decepou a perna esquerda de um guarda de trânsito…
Se o habilidoso leitor de teleprompter dissesse que Bolsonaro, na prisão, soluça em ritmo de samba, e que Lula pintou de rosa choque a unha do dedo mindinho da mão esquerda, não esboçaríamos reação de espanto.
— “Olha, vó, a verdade é que não temos como saber com certeza. Eu acho que aquilo que está a nosso alcance são os fatos do cotidiano: podemos sentir os efeitos da inflação, por exemplo, observando o aumento dos preços dos produtos no supermercado; e é possível enxergar sinais de que começamos a viver sob censura estatal (via STF, vó), quando meu primo João (que veio jantar conosco no mês passado, lembra?) confessou ter medo de fazer uma simples publicação na sua rede social, por conta dos togados de Brasília. Agora, quanto à perna estropiada do guarda de trânsito ucraniano (o coitado), só podemos rezar pelo sujeito.
— “É verdade. Meu filho é muito sabido. Mas eu me preocupo mesmo é com as frutinhas. Você disse que essa tal de inflação pode encarecer tudo”.
— “Quais frutinhas, vó?!”.
— “Ô menino, as frutinhas do panetone. Como é que eu posso fazer aquela receita de panetone da sua bisa sem as frutinhas?!”.
— “Está tudo bem, vó. A inflação não vai acabar com o nosso Natal. Pelo menos não com o nosso panetone de família”.
— “Que mal lhe pergunte”.
— “Pode falar, vó”.
— “Meu querido, você poderia ir ao supermercado para a vovó? Vou fazer panetone para o café e preciso das frutinhas”.
— “Vou sim, vó, mas desliga essa porcaria de televisão”.
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Crónica de Vitor Marcolin
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