Carris que arfam
Por esta altura do campeonato, já havia passado o entusiasmo de Pedro com as viagens de comboio, hoje intermináveis.
Avesso à epidemia dos fones de
ouvido, qual Goldstein do domínio dos auriculares no mundo, restava-lhe
a paisagem, outrora preenchida por um rio, fábricas, muralhas de casas e pelo
céu da manhã que se abria, formoso, para si. Hoje, resigna-se a ver as
fábricas, que sujam e estrangulam o seu céu.
Não contava Pedro ter de ir à
Faculdade a um sábado, mas uma avaliação de Cálculo exigia-lhe isso mesmo. À
chegada, estação vazia. Comboio? Quase desoladoramente apocalítico. Ou seja,
mais uma de tantas viagens, mas esta só.
Duas paragens antes do seu destino
final, ouviu-se o ranger dos carris mais vincadamente e Pedro vê surgir a
revisora. Espantou-se, pois não via Rute há muitos anos (três anos são uma
eternidade nestas alturas…) e não previu que a reencontrasse a policiar
bilhetes ou passes.
- Como vai tudo?
- A andar, sim.
- Como vai a Bia?
- Em casa dela, suponho.
- Ah… Já não estão juntos?
- Separamo-nos há uns meses.
- Lamento saber.
- Não lamentes.
- Bem, tenho de ir… O comboio não
anda sozinho, não é?
Rute seguiu na carruagem, sem olhar
para trás. De súbito:
- E não vês o meu passe? Vou ter de
fazer uma reclamação à CP…
Mas a brincadeira, o riso e o passe
em riste perderam-se no barulho de uma curva brusca.
À chegada à estação deserta (outra…),
Pedro inclinou-se à espera de que a porta abrisse, numa ânsia injustificada de
ser o primeiro a sair da carruagem às moscas. Nesse esforço glório, atrapalhou
as pernas e os pés e caiu para a plataforma. Melhor, teria caído para a
plataforma, não fosse a presença de uma antiga colega de escola, que já não via
há uns três anos, desde aquela vez no Parque.
- Onde ias? Deixa-me ver o teu passe.
Conto de João Loureiro
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