Deambulação em Cesário e Sá-Carneiro: escrita e vida


Deambulação, de acordo com o Dicionário da Língua Portuguesa organizado pela Academia das Ciências de Lisboa, caracteriza-se por ser um «ato de vaguear de um lado para outro, sem direção preestabelecida, nem ponto de chegada ou de paragem obrigatória». A partir desta acepção podemos, à partida, aferir que Cesário Verde não era um deambulador, mas sim Mário de Sá-Carneiro. 


Deste modo, embora Cesário Verde tenha, efetivamente, passado a sua vida a percorrer as ruas da baixa de Lisboa, a verdade é que só se limitava a isso, a percorrer, a atravessar aquelas ruas de uma ponta à outra com um propósito em mente e com um trajeto definido; o contrário da deambulação que Mário de Sá-Carneiro realizava, já que este andava errante pelas mesmas ruas por onde Cesário andou mas também, e essencialmente, pelas ruas de Paris, parando por acaso de café em café, sem rumo, sem um propósito preestabelecido. A existência ou a falta de um propósito inerente nas deslocações dos dois poetas em questão, é fundamental para definir as «deambulações» presentes tanto na vida quanto na obra de ambos.


Com efeito, é possível afirmar que Mário de Sá-Carneiro figura-se como o deambulador por excelência, porque andava para escapar de si próprio e não com o mesmo objetivo que Cesário manifestava: o de recolher informações acerca das atividades e dos comportamentos dos transeuntes, de modo a elaborar quase que um itinerário detalhado da baixa de Lisboa, bem como um estudo sociológico ou etnográfico, um testemunho de uma Lisboa que já não existe. Sá-Carneiro mostrava-se mais introspectivo na medida em que não empregava os elementos exteriores - ou seja, não deambulava no sentido de recolher dados - nas suas poesias, mas antes realizava este ato de forma enfastiada quando não havia nenhum espetáculo para assistir, ou mesmo quando os seus pensamentos se intrometiam tanto no seu quotidiano que a única coisa que o poderia aliviar do peso da sua memória era andar pelas ruas de Paris ou Lisboa, parando de café em café como que em busca de algo que nem mesmo ele sabia o quê. O ato de deambular caracteriza-se, como foi dito acima, pela falta de um propósito, elemento que certamente faltava no caso de Sá-Carneiro, uma vez que Cesário saía à rua já com um objetivo em mente. 


Cesário Verde, conhecido como o parnasianista português, explorou a deambulação nas suas composições poéticas. Porém, foi Mário de Sá-Carneiro quem viveu essa deambulação nas ruas de Paris. Desta forma, Cesário procurava na deambulação a fonte das temáticas das suas poesias, bem como um escape à própria cidade que o sufocava na sua industrialização, alegrando-se por aqueles que se vão, felizes. Enquanto que Cesário sente esta necessidade desesperante de se evadir para o campo, Sá-Carneiro procura essa mesma cidade que tanto incomoda o poeta parnasianista, uma vez que o mesmo vê a cidade como um indício do futuro, do progresso, necessário à sociedade portuguesa, estagnada num passado e numa monotonia decadentes. É com esta intenção de procura do progresso que Sá-Carneiro nunca manifesta a intenção de revisitar o campo - onde passara os primeiros anos da sua infância -, mas antes pretende permanecer, indefinivelmente, na cidade do progresso, Paris, tal como se refere em Galhoz, M. A. D. (1963). Mário de Sá-Carneiro (Vol. 7, Coleção Vida, pensamento, obra). Editorial Presença: 



«Conta a Fernando Pessoa seu encanto por Paris [o único sítio que realmente sente], a sua dor de abandonar a «cidade da sua ternura» e a hesitação em que está de regressar definitivamente.»



 Embora tivesse lá ido para ingressar na prestigiada Sorbonne, a verdade é que nunca frequentou assiduamente a universidade, preferindo, antes, deambular pelos cafés da cidade, escrever, planear o segundo número da revista Orpheu, e travar conversa com diversas figuras excêntricas do seu tempo, como é o caso de Santa-Rita Pintor, que permaneceu companhia assídua para Sá-Carneiro, embora não fosse aprazível para o mesmo:



«Não imagina você como me incomodam, me arrepanham e torturam as conversas com este personagem de quem procuro afastar-me o mais possível.» Sá-Carneiro, Mário (1992). Cartas a Fernando Pessoa (livros I e II). Ática



Neste sentido, Cesário Verde toma o real como matéria viva para os seus poemas, preocupando-se com causas sociais, dando ênfase ao que lhe é exterior, minimizando os seus sentimentos, derivando estes sempre do que ele vê no seu exterior, como a tísica que engoma para fora, ou mesmo as figuras femininas altivas que levam um pedaço do coração do sujeito poético em causa. Tal não se observa nas estrofes de Sá-Carneiro, em que o seu interior toma o lugar principal no poema, fazendo uso da introspecção como forma de refletir as suas angústias e até a sua própria condição de vida. Voltando ao ponto da deambulação, Sá-Carneiro, ao contrário de Cesário, utiliza o ato deambulatório como forma de se escapar de si mesmo, incursando numa vida boémia que, no fundo, pouco lhe apraz, sendo a principal causa para as suas crises emocionais. Em Mário de Sá-Carneiro vemos um sujeito poético preocupado em demonstrar a sua condição interna, o seu eu mais profundo, utilizando o exterior como exemplo do que acontece no seu íntimo, como se pode depreender através da leitura do poema «Recreio»:



«Na minha Alma há um balouço

Que está sempre a balouçar ---

Balouço à beira dum poço,

Bem difícil de montar…«



Aqui, o poeta utiliza, explicitamente, o exterior como forma de traduzir a sua alma incompreendida por todos, sendo a escrita a forma predileta de Mário de Sá-Carneiro para o fazer:



«Vou vivendo como sempre, olhando muito para mim [...].» Sá-Carneiro, Mário (1992). Cartas a Fernando Pessoa (livros I e II). Ática



«[...] não sendo de nenhum modo obra de inspiração realista ou romanesca, mas sim, e essencialmente, a multiplicada tentativa de expressão das bizarrias, das estranhas particularidades da sua alma.»  Casais Monteiro, Adolfo (1977). A Poesia Portuguesa Contemporânea (Coleção Descobrir Portugal). Sá da Costa



O poeta é percecionado como alguém extremamente perturbado no campo mental, sendo isto inferido pelo mesmo nas cartas ao seu maior confidente Fernando Pessoa:



«Efetivamente preparei tudo para a minha «morte». Escrevi-lhe uma última carta a você, outra a meu Pai [...]»; «Saí para escrever um pneumático longuíssimo onde contava tudo e anunciava o meu suicídio às 2 ½ na estação de Pigalle (Nord-Sud).» Sá-Carneiro, Mário (1992). Cartas a Fernando Pessoa (livros I e II). Ática



Cesário Verde também vive permanentemente amargurado com a vida urbana, desejando sempre o retorno a um ambiente rural onde, tal como Sá-Carneiro, passara a sua infância: tempo áureo sem indícios da corrupção que a cidade provoca não só no sujeito poético, mas também nas demais personagens presentes na sua poesia, uma vez que as mesmas nunca são descritas de uma forma positiva, dando ênfase a características decadentes que a cidade transpõem para as tais personagens, como se pode verificar através desta estrofe do poema «Num Bairro Moderno»:



«Se ela se curva, esguedelhada, feia,»



Além disto, o sujeito poético também enaltece constantemente os episódios funestos que a vida na cidade culmina, como é visível no poema «Desastre» em que se apresenta a agonia de um trabalhador que sofrera uma queda de um andaime: 



«Ele ia numa maca, em ânsias, contrafeito, 

Soltando fundos ais e trémulos queixumes: 

Caíra d’um andaime e dera com o peito, 

Pesada e secamente, em cima d’uns tapumes.»



Embora Cesário Verde, claramente, demonstre os efeitos negativos da cidade nos seus poemas, a verdade é que, trabalhando e morando na baixa de Lisboa, é evidente que passava muito tempo a percorrer as suas ruas, não só no percurso casa-trabalho, mas também de modo a recolher informações para as suas composições poéticas. 


Além disto, pode-se afirmar que Cesário Verde não escrevia na rua enquanto captava esse real que tanto procurava, mas antes em casa, à sua secretária, como está patente em «Nevroses/Contrariedades»:



«Sentei-me à secretária. Ali defronte mora

Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;

Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes

E engoma para fora.»



Embora o eu poético se mostre a deambular pelas ruas da baixa de Lisboa, a verdade é que o poeta não o faz, propriamente. Cesário é conhecido como o poeta dos alexandrinos, requerendo um grau formal relativamente elevado, ou seja, trabalhava exaustivamente a métrica das suas composições de modo a que se encaixassem nesse modelo. Deste modo, é evidente que, embora Cesário possa ter percorrido Lisboa com o objetivo de recolher matéria poética, o mesmo pode ter alterado determinados elementos de modo a aperfeiçoar a métrica. Neste sentido, muitos dos elementos preconizados nos seus poemas podem ser, apenas, fruto da sua imaginação não tendo, propriamente, os visto diretamente, sendo perfeitamente concebível que o poeta tenha alterado determinadas palavras ou expressões de modo a conseguir a métrica perfeita: não precisaria de ser um deambulador para escrever poesia. Sá-Carneiro também não precisa de errar pela cidade para escrever, mas sim para fugir de si próprio e, consequentemente, da escrita, já que a característica mais evidente da sua poesia é a introspecção, o falar sucessivamente de si próprio e dos vários estados por que a sua alma passa. 


Assim, é possível concluir que, ao contrário de Mário de Sá-Carneiro, Cesário Verde não tinha a necessidade de deambular constantemente em busca de matéria poética, podendo, perfeitamente, recolher as suas temáticas numa simples observação, num passeio ou numa «ida à rua» ocasional, não sendo a deambulação indispensável para a elaboração dos seus poemas, uma vez que o nível formal dos mesmos ocupa grande parte do trabalho do escritor. Já Mário de Sá-Carneiro, entregando-se a uma vida quase sem rumo, sem rotina, sem destino, não tinha outra alternativa senão passar o seu tempo a deambular pelas ruas de Paris e Lisboa porque, ao contrário de Cesário Verde, Sá-Carneiro não possuía nenhuma atividade profissional; antes escolhera uma vida dedicada somente à escrita e à errância, o que o levou a um fim desesperante. 








Bibliografia e fontes consultadas online

Galhoz, M. A. D. (1963). Mário de Sá-Carneiro (Vol. 7, Coleção Vida, pensamento, obra). Editorial Presença 

Verde, Cesário (1887). O Livro de Cesário Verde

Sá-Carneiro, Mário (1992). Cartas a Fernando Pessoa (livros I e II). Ática

https://dicionario.acad-ciencias.pt/pesquisa/?word=deambula%C3%A7%C3%A3o  

https://www.lexico.pt/deambular/ 

Casais Monteiro, Adolfo (1977). A Poesia Portuguesa Contemporânea (Coleção Descobrir Portugal). Sá da Costa




Ensaio escrito por Matilde Lopes



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